Sempre que alguém me pergunta "onde é que devo pôr o meu dinheiro em P2P", a resposta curta é sempre a mesma: não sei, porque a pergunta certa não é "onde", é "como reparto". P2P não é uma classe de ativo, é uma dúzia de classes de ativo diferentes vestidas com o mesmo nome, e tratá-las todas da mesma forma é a maneira mais rápida de teres uma surpresa desagradável.

Tenho capital espalhado por várias plataformas há alguns anos, Scramble, Maclear, GoParity, EstateGuru, Peerberry, Esketit, Robocash, Afranga, entre outras que já testei e algumas que já saí. Isto não é recomendação de nenhuma delas em particular, é o relato de como penso a alocação, para que consigas construir o teu próprio raciocínio em vez de copiares a minha carteira às cegas.

Por que "P2P" é uma etiqueta enganadora

Quando dizes "tenho X% em P2P", estás a esconder informação importante. Empréstimos a consumidores não têm nada a ver, em termos de risco, com crowdlending imobiliário. Um empréstimo empresarial regulado na Suíça (como a Maclear) não se comporta como um empréstimo ao consumo com garantia de recompra numa plataforma báltica. Misturar tudo numa única percentagem de "alocação em P2P" é como dizeres que "tens ações", sem distinguir entre uma blue chip e uma penny stock especulativa.

A primeira coisa que faço, sempre, é separar por categoria de ativo subjacente, não por plataforma:

Empréstimos ao consumo (Esketit, Peerberry, Robocash, na minha experiência) — tickets mais pequenos, prazos mais curtos, yields normalmente entre 10-14%, muitas vezes com garantia de recompra do originador (buyback), que reduz risco mas não o elimina, se o próprio originador falhar, o buyback não vale nada.

Crowdlending imobiliário (EstateGuru, e outras que já testei) — ligado a projetos concretos, com garantia hipotecária na maioria dos casos, prazos mais longos, mais suscetível ao ciclo do imobiliário na região do projeto.

Empréstimos empresariais regulados (Maclear) — a operar sob regulação suíça, focados em financiamento a empresas, não a consumidores individuais. Costuma ter menos volatilidade de yield mas também menos liquidez de saída antecipada.

Consumo de marca/produto (Scramble) — modelo diferente dos anteriores, ligado a marcas de consumo específicas em vez de imobiliário ou crédito ao consumo genérico, com categorias internas de risco (a Scramble, por exemplo, distingue entre juro mensal e retorno no fim do prazo, consoante o produto).

Verde/impacto (GoParity, no meu caso) — projetos com componente de sustentabilidade, geralmente com yields mais moderados, mas com um perfil de risco que aprecio por ser mais transparente sobre o destino do capital.

Como reparto, na prática

Não vou dar-te uma percentagem exata "ideal", porque não existe, depende do teu perfil de risco, do que já tens noutros ativos, e da tua tolerância a ficares sem acesso ao capital durante um problema numa plataforma. Mas o raciocínio que sigo é este:

Nenhuma plataforma individual ultrapassa uma fatia que me deixe confortável se ela, hipoteticamente, colapsasse amanhã. Já vi plataformas de P2P fecharem, atrasarem pagamentos durante meses, ou simplesmente deixarem de responder a emails. Não é um cenário hipotético abstrato, é algo que já aconteceu no setor, mais do que uma vez.

Diversifico por categoria de risco, não só por nome de plataforma. Ter dinheiro em três plataformas diferentes de crédito ao consumo, todas com o mesmo tipo de risco subjacente, não é diversificação real, é a mesma aposta feita três vezes.

Trato o P2P como satélite, não como núcleo. A maior parte do meu património está em ETFs, o P2P é uma fatia complementar, atraído pelo yield mais alto, mas conscientemente aceitando que é dinheiro com risco de crédito muito mais concentrado do que um índice diversificado de milhares de empresas.

Reavalio com regularidade, não só quando algo corre mal. Já reduzi posições em plataformas que continuavam a pagar normalmente, só porque a minha confiança na transparência da gestão tinha baixado. Não esperes o sinal óbvio de alarme, presta atenção aos sinais menores primeiro: comunicação mais lenta, relatórios menos detalhados, mudanças na equipa.

O que arriscas em cada categoria, sem rodeios

Vale a pena seres honesto contigo próprio sobre isto, porque a maioria do marketing destas plataformas foca-se no yield e passa ao lado disto:

O que faria de forma diferente se começasse hoje

Teria começado a categorizar por tipo de risco desde o primeiro euro, em vez de só perceber a diferença depois de já ter espalhado capital por oito ou nove plataformas sem grande critério, além de "esta parece confiável". Também teria sido mais rigoroso a acompanhar os relatórios trimestrais de cada plataforma, em vez de assumir que "está tudo bem" só porque os pagamentos continuavam a chegar.

Não é sobre encontrar a plataforma perfeita, não existe. É sobre construir uma carteira de P2P onde nenhum problema individual, por pior que seja, te tire o sono.


Este artigo reflete a minha experiência pessoal com as plataformas mencionadas e não constitui aconselhamento financeiro. O investimento em P2P envolve risco de perda de capital, incluindo perda total em cenários de insolvência do originador ou da plataforma. Faz a tua própria pesquisa antes de investires, e nunca coloques capital que não possas perder.